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  • Ana Clara Mardegan

Tráfico de animais: uma ameaça à biodiversidade brasileira

Um homem arrisca a própria vida e escala mais de 20 metros para capturar filhotes de papagaio com apenas alguns dias de vida, ainda no ninho. Em alguns casos, cortam as árvores com auxílio de motosserras para facilitar o acesso até as aves. Enquanto isso, pequenos macacos são arrancados das costas da mãe e ficam órfãos ao perdê-las para tiros de espingarda. Afinal, paga-se melhor pelos filhotes. As fêmeas adultas não possuem nenhuma serventia.


Este é apenas um recorte do problema que impacta cerca de 38 milhões de espécimes da fauna brasileira todos os anos: o tráfico de animais silvestres. O caso aconteceu na Reserva Biológica de Sooretama, no norte do Espírito Santo, e foi noticiado pelo Jornal Hoje. A reportagem revela áudios e todo o esquema organizado pelos criminosos para levar os animais da Reserva de Sooretama até o Rio de Janeiro, onde são vendidos por preços exorbitantes.


Papagaio-chauá e Macaco-prego-de-crista, espécies ameaçadas pelo contrabando de animais.

Fotos: Leonardo Merçon


Segundo o IBAMA / Polícia Federal, responsável pelas investigações contra os traficantes, os papagaios capturados eram vendidos por 100 reais para um intermediário, que organizava o esconderijo e transporte das aves até revendê-las para o comprador final por 3 mil reais cada. Estima-se que só em 2020, cerca de 55 filhotes de papagaio tenham sido capturados na Reserva Biológica de Sooretama.



O local é protegido por lei, reunindo um grande número de espécies endêmicas (que só ocorrem na região) e porções de vegetação nativa da Mata Atlântica. Os mais de 20 mil quilômetros de extensão da reserva compõem um patrimônio biológico de valor inestimável para a biodiversidade brasileira.


Confira a reportagem completa clicando abaixo:


O QUE DIZ A LEI?

Segundo Juliana Machado Ferreira, diretora executiva da Freeland Brasil, organização que combate ao tráfico de espécies silvestres, a legislação brasileira ainda carece de políticas eficientes contra o tráfico de animais selvagens. Apesar da Lei Federal de Crimes Ambientais – Lei 9605/1998, que criminaliza o contrabando de fauna silvestre, as medidas são desproporcionais à gravidade dos impactos que a atividade gera. A pena máxima para o crime é de apenas um ano, com pagamento de multa, mas na maior parte dos casos os caçadores são liberados muito antes de cumprirem o tempo estimado.


Além da crueldade animal e da extinção de espécies que exercem funções biológicas imprescindíveis para conservação da biodiversidade, o contrabando é responsável pela disseminação de zoonoses (doenças transmitidas por animais); por desencadear o desequilíbrio ambiental, com a introdução de espécies exóticas/invasoras em diferentes ecossistemas; pela perda de biodiversidade genética e por diversos outros problemas ambientais.


ÚLTIMOS REFÚGIOS E RESERVA BIOLÓGICA DE SOORETAMA

Entre 2013 e 2015, o Instituto Últimos Refúgios frequentou a Reserva de Sooretama para produção dos registros do segundo volume da série Áreas Protegidas. O local foi escolhido como cenário do livro justamente por representar uma das maiores porções da Mata Atlântica capixaba e um verdadeiro berço de biodiversidade.



Sooretama, ou “casa dos animais da mata”, na língua Tupi, revela-se como um dos últimos refúgios da Mata Atlântica do Espírito Santo, abrigando espécies como a onça-pintada, o tatu-canastra e as majestosas harpias. O complexo consta como “Patrimônio Natural da Humanidade” na lista da UNESCO, além de ser uma das áreas chave para a preservação de aves pela organização Birdlife International.


Espécies fotografadas na Reserva Biológica de Sooretama. Fotos: Leonardo Merçon


O tráfico de animais silvestres na região causa uma tristeza incalculável àqueles que tiveram a oportunidade de contemplar a reserva e suas inúmeras formas de vida. O Instituto Últimos Refúgios espera que a repercussão do caso possa colaborar com o desenvolvimento de políticas públicas que combatam a exploração econômica e ambiental da fauna e flora brasileira.


DENÚNCIA

Para denunciar esquemas de tráfico de animais silvestres, entre em contato com o IBAMA ou à Polícia Militar Ambiental. A denúncia pode ser feita de forma anônima pela Linha Verde do IBAMA no número 0800 061 8080, por Chat Online, E-mail ou pelo “Fala.BR”, a plataforma Integrada de Ouvidoria e Acesso à Informação do Governo Federal.

Acesse o "Fale com o IBAMA" e denuncie.


Caso opte pelo “Fala.BR”, clique em “denúncia” na página inicial e escolha se deseja realizar o cadastro ou fazer a denúncia de forma anônima, em “não identificado”. O cadastro viabiliza o acompanhamento do processo em tempo real, além do recebimento de atualizações por e-mail. Na modalidade anônima, não é possível acompanhar o processo. Basta selecionar o órgão ao qual deseja enviar a manifestação, a descrição do ocorrido e informações adicionais.


Vale lembrar que ao encontrar algum animal silvestre perdido ou em situação de risco, entre em contato com os órgãos ambientais da sua região para que resgatem e encaminhem o animal para o local adequado. Alguns animais podem precisar de cuidados veterinários e serão destinados a órgãos de reabilitação, onde terão a oportunidade de retornar à natureza. Por questões de segurança, nunca tente fazer o resgate sozinho.”

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