POST EM DESTAQUE

Foto do U.R. ganha concurso no Instagram

10/07/2019

1/7
Please reload

Uma história de galhos tortos e motosserras: a incansável saga das florestas anãs

November 21, 2017

Sempre quando falamos sobre savana, a primeira imagem que vem à cabeça é da vastidão dos campos africanos, povoados por leões, guinus, rinocerontes e girafas. Mas as savanas ocorrem em várias regiões da Terra, e a mais rica delas está aqui, bem pertinho de nós: o Cerrado! Se você já teve oportunidade de passar por ali, certamente observou as estranhas florestas anãs, ou florestas de cabeça para baixo, como também são chamadas em função das pequenas e tortuosas arvoretas com suas extensas raízes.

 

 

O Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro, ocupando originalmente 25% do território nacional, o que o coloca atrás apenas da Amazônia em extensão territorial. Ele se estende por pelo menos 10 estados brasileiros, do norte do Paraná até o Maranhão, limitado ao sul pelos Pampas, ao norte pela Amazônia, a leste pela Mata Atlântica e pela Caatinga, e ao oeste pelo Pantanal. São cerca de dois milhões de quilômetros quadrados do Brasil central dominados por campos, veredas, matas e savanas típicas que compreendem uma incrível diversidade de ecossistemas e formas de vida.

 

Muita gente não sabe, mas o Cerrado é a savana com a maior biodiversidade do planeta. São conhecidas mais de 13000 espécies de plantas para o bioma, 250 espécies de mamíferos, 850 espécies de aves, 280 espécies de répteis, 200 espécies de anfíbios e 1200 espécies de peixes. Os invertebrados e fungos ainda são pouco conhecidos, mas estimativas apontam para cerca de 100000 espécies em cada um destes grupos. Outro aspecto que faz do Cerrado uma savana única é a alta taxa de endemismos, ou seja, o grande número de espécies que só ocorrem ali. Para ter uma ideia, quase 40% de todas as espécies de plantas e répteis e cerca de 50% dos anfíbios não são encontrados em nenhum outro lugar do mundo.

 

Pode não parecer, mas logo abaixo da vegetação tortuosa e ressequida se encontra a grande caixa d’água do Brasil. O Cerrado é o lar das nascentes de algumas das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil e da América do Sul: a bacia do Amazonas, do São Francisco, do Araguaia-Tocantins, do Parnaíba e do Paraná-Paraguai. Os rios que escoam dos chapadões do Brasil central abastecem parte considerável da população brasileira e alimentam os grandes aquíferos do país - reservatórios naturais de água subterrânea, que absorvem e filtram a água que escoa da superfície, fornecendo água limpa e de excelente qualidade para o uso humano.

 

 

Essas e outras tantas riquezas naturais presentes no Cerrado propiciaram a ocupação humana na região a pelo menos 13000 anos. Eram grupos de caçadores-coletores que deram origem às mais de 83 etnias indígenas conhecidas atualmente para o bioma, como Xavantes, Tapuias, Carajás, Crahôs, Xerentes e Xacriabás. Os primeiros colonizadores europeus chegaram ao Cerrado em meados do século XVI, mas a grande reviravolta na ocupação do bioma só aconteceu ao longo do século XX, com o incentivo governamental para a expansão da agropecuária e para o estabelecimento de indústrias nos estados de São Paulo, Goiás e Minas Gerais. A preocupação com a proteção das fronteiras nacionais também levou a um estímulo para a colonização do Cerrado: foi a “marcha para o oeste” na sua versão tupiniquim. O maior marco desse processo foi a construção de Brasília, na década de 1950. Mais recentemente, o aumento da demanda por minério de ferro no mercado internacional trouxe uma nova e crescente ameaça para o Cerrado: a mineração.

 

Como resultado de todo o processo de expansão agropecuária, industrial, demográfica e urbana, as pressões sobre o Cerrado brasileiro se multiplicaram a partir da segunda metade do século XX. Estimativas conservadoras mostram que pelo menos 50% da área original do Cerrado já foi perdida pela ação humana, enquanto as mais pessimistas apontam até 80% de perda. A proteção do Cerrado também ocorre de forma desigual ao longo do território. A maior proporção das áreas ainda conservadas se encontra na sua porção norte, nos estados de Piauí, Maranhão e Tocantins, enquanto os estados do sul (São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul) apresentam as menores áreas de cobertura vegetal original. Além de pequenas e isoladas, as áreas protegidas no Cerrado representam uma fração ínfima da extensão territorial que esse bioma originalmente ocupava. 

 

 

Somente 2% do bioma estão legalmente protegidos, e estimativas indicam que pelo menos 20% das espécies endêmicas e ameaçadas permanecem fora dos parques e reservas existentes. Essa delicada balança entre preservação e desenvolvimento econômico fez com que o Cerrado entrasse para a seleta lista dos 25 hotspots mundiais: áreas com excepcional biodiversidade vegetal e que já vivenciaram uma perda considerável do hábitat original. São regiões que têm prioridade máxima para o planejamento de ações de conservação em nível global. Ou, em tese, deveriam ter.

 

 

Infelizmente, ainda assim o Cerrado permanece secundário nas preocupações ambientais, mais voltadas aos biomas florestais, como a Amazônia e a Mata Atlântica. Enquanto a fauna e a flora do bioma ficam cada vez mais sufocados dentro dos seus últimos refúgios, a segurança hídrica e alimentar do Brasil se vê ameaçada por grandes projetos corporativos que visam o lucro das empresas multinacionais. O futuro da biodiversidade da savana mais rica do planeta e das pessoas que ali vivem está em nossas mãos. É hora de decidir, já, se queremos uma infinitude de campos estéreis ou água, alimentos saudáveis e lazer para as próximas gerações.

 

 

*Texto e fotos de Augusto Milagres e Gomes, Biólogo e mestre em Ecologia.

 

Conheça mais sobre o trabalho do Augusto no LINK.

 

Acompanhe também o Instituto Últimos Refúgios nas mídias sociais.

Facebook - www.facebook.com/ultimosrefugios

Youtube - www.youtube.com/ultimosrefugios

 

O Instituto Últimos Refúgios é uma organização sem fins lucrativos na qual os participantes são voluntários. Se gosta de nosso trabalho e quer que ele continue, saiba como colaborar no link: PARTICIPE

 

"Inspirando pessoas, promovemos mudanças!"

 

REFERÊNCIAS

 

Alho, C.J.R. & Martins, E.S. 1995. De Grão em Grão, o Cerrado Perde Espaço. Cerrado – Impactos do Processo de Ocupação. WWF-Brasil, Brasília, DF.

 

Avidos, M.F.D. & Ferreira, L.T. 2000. Frutos dos Cerrados. Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento 15: 36-41.

 

Brasil 2012. Lei nº 12.651. Dispõe sobre a proteção da vegetação nativa; altera as Leis nos 6.938, de 31 de agosto de 1981, 9.393, de 19 de dezembro de 1996, e 11.428, de 22 de dezembro de 2006; revoga as Leis nos 4.771, de 15 de setembro de 1965, e 7.754, de 14 de abril de 1989, e a Medida Provisória no 2.166-67, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12651.htm#art83. Acesso em 10/02/2016.

 

Cavalcanti, R.B. & Joly, C.A. 2002. Biodiversity and Conservation Priorities in the Cerrado Region. In: Oliveira, P.S. & Marquis, R.J. The Cerrados of Brazil: Ecology and Natural History of a Neotropical Savanna. New York. Columbia University Press. Pp. 351-367.

 

Diegues, A.C.; Arruda, R.S.V.; Silva, V.C.F.; Figols, F.A.B. & Andrade, D. 1999. Biodiversidade e Comunidades Tradicionais no Brasil. Ministério do Meio Ambiente. São Paulo, SP.

 

Hoffmann, W. A. & Jackson, R.B. 2000. Vegetation-climate feedbacks in the

conversion of tropical savanna to grassland. Journal of Climate 13: 1593–1602.

 

IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) 2016. Banco de Dados: Séries Estatísticas & Séries Históricas. Disponível em: http://seriesestatisticas.ibge.gov.br/. Acesso em 02/02/2016.

 

Jepson, W. 2005. A disappearing biome? Reconsidering land-cover change in the Brazilian savanna. The Geographical Journal 171 (2): 99–111.

 

Joly, C.A.; Aidar, M.P.; Klink, C.A.; McGrath, D.G.; Moreira, A.G.; Moutinho, P.; Nepstad, D.C.; Oliveira, A.A.; Pott, A.; Rodal, M.J.N. & Sampaio, E.V.S.B. 1999. Evolution of the Brazilian phytogeography classification systems: implications for biodiversity conservation Ciência e Cultura 51 331–48.

Klink, C.A. & Moreira, A.G. 2002. Past and Current Human Occupation, and Land Use. In: Oliveira, P.S. & Marquis, R.J. The Cerrados of Brazil: Ecology and Natural History of a Neotropical Savanna. New York. Columbia University Press. Pp. 69-88.

 

Klink, C.A. & Machado, R.B. 2005. A conservação do Cerrado brasileiro. Megadiversidade 1(1): 147-155.

 

Mantovani, J. E. & Pereira, A. 1998. Estimativa da integridade da cobertura vegetal do cerrado/pantanal através de dados TM/Landsat. Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, São Jose dos Campos.

 

Miranda, E.E. 2009. Natureza, conservação e cultura: ensaio sobre a relação do homem com a natureza no Brasil. Metalivros. São Paulo, SP. 179 p.

 

Myers, N.; Mittermeier, R.A.; Mittermeier, C.G.; Fonseca, G.A.B. & Kent, J. 2000. Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature 403: 853-858.

 

Oliveira, P.S. & Marquis, R.J. 2002. Introduction: Development of Research in the Cerrados. In: Oliveira, P.S. & Marquis, R.J. The Cerrados of Brazil: Ecology and Natural History of a Neotropical Savanna. New York. Columbia University Press. Pp. 1-10.

 

Oliveira-Filho, A.T. & Ratter, J.A. 2002. Vegetation Physiognomies and Woody Flora of the Cerrado Biome. In: Oliveira, P.S. & Marquis, R.J. The Cerrados of Brazil: Ecology and Natural History of a Neotropical Savanna. New York. Columbia University Press. Pp. 91-120.

 

Pequi (Pesquisa e Conservação do Cerrado) 2016. Povos do Cerrado. Disponível em: http://www.pequi.org.br/povos.html. Acesso em 03/02/2016.

 

Pivello, V.R. 2005. Manejo de fragmentos de Cerrado: princípios para a conservação da biodiversidade. In: Scariot, A.; Sousa-Silva, J.C. & Felfili, J.M (eds.). Cerrado: Ecologia, Biodiversidade e Conservação. Brasília: Ministério do Meio Ambiente. Pp. 401-413.

 

Ratter, J.A.; Ribeiro, J.F. & Bridgewater, S. 1997. The Brazilian Cerrado Vegetation and Threats to its Biodiversity. Annals of Botany 80: 223-230.

 

Rede Cerrado 2016. Povos e comunidades tradicionais do Cerrado. Disponível em: http://www.redecerrado.org.br/index.php/povos-e-comunidades-tradicionais. Acesso em 03/02/2016.

 

Ribeiro, J.F.; Ratter, S.B.J.A. & Sousa-Silva, J.C. 2005. Ocupação do bioma Cerrado e conservação da sua diversidade vegetal. In: Scariot, A.; Sousa-Silva, J.C. & Felfili, J.M (eds.).

Cerrado: Ecologia, Biodiversidade e Conservação. Brasília: Ministério do Meio Ambiente. Pp. 383-399.

 

Rodrigues, V.E.G. & Carvalho, D.A. 2001. Levantamento etnobotânico de plantas medicinais no domínio do Cerrado na região do alto Rio Grande – Minas Gerais. Ciência e Agrotecnologia 25(1): 102-123.

 

Roesler, R.; Malta, L.G.; Carrasco, L.C.; Holanda, R.B.; Sousa, C.A.S. & Pastore, G.M. 2007. Atividade antioxidante de frutas do cerrado. Ciência e Tecnologia de Alimentos 27(1): 53-60.

 

Sano, E.E.; Rosa, R.; Brito, J.L.S. & Ferreira, L.G. 2010. Land cover mapping of the tropical savanna region in Brazil. Environmental Monitoring and Assessment 166: 113–124.

 

Silva, J.M.C. & Bates, J.M. 2002. Biogeographic patterns and conservation in the South American Cerrado: a tropical savanna hotspot. BioScience 52: 225-233.

 

Souza, C.D. & Felfili, J.M. 2006. Uso de plantas medicinais na região de Alto Paraíso de Goiás, GO, Brasil. Acta botanica brasilica 20(1): 135-142.


Vila Verde, G.M.; Paula, J.R. & Carneiro, D.M. 2003. Levantamento etnobotânico das plantas medicinais do cerrado utilizadas pela população de Mossâmedes (GO). Revista Brasileira de Farmacognosia 13: 64-66.

 

Please reload

Store_UltimosRefugios.png

Somos uma organização sem fins lucrativos. Por isso dependemos de doações para manter viva a luta em prol do meio ambiente. Sua colaboração mensal garante a continuidade e a independência do nosso trabalho.

Post_amigos_do_ultimos_refugios01.jpeg

Quer receber novidades? - Assine a newsletter

CALL US:

+55 (27) 3022-1667

Rua Humberto Balbi - 21 - Ed. Renê Descartes - sala 208 -

Jardim Camburi - Vitória, ES - Brazil

2006-2019 © Últimos Refúgios - All rights reserved

  • Facebook - Últimos Refúgios
  • YouTube - Últimos Refúgios
  • Instagram - Últimos Refúgios
  • Twitter - Últimos Refúgios